O empresário José Otávio Meira Lins estava com 31 anos quando, em 1984, decidiu que era hora de mudar. Deixou de trabalhar nos negócios do pai (fazenda de gado, siderurgia, automóveis) e entrou para o ramo da hotelaria. Montou o Hotel Marolinda, na cidade patrimônio. Dois anos depois, abriu uma nova unidade, em Boa Viagem. Em 1990, resolveu mudar outra vez, transformando o Marolinda do Recife em um hotel voltado para o segmento de convenções. Dois anos atrás, iniciou uma nova transformação, intensificada nos últimos meses. O Marolinda virou um hotel cultural.
Focado nas manifestações do estado, o lugar já ganhou até um novo nome: Cult Hotel. "Não existem os hotéis de charme? Nossa idéia é criar o segmento de cult hotéis. Não é padronizar a estrutura, mas o conceito", destaca o empresário, que tem um acervo de 270 quadros e esculturas de artistas pernambucanos nos sete andares do prédio e realiza exposições e concursos para incentivar artistas da região. "Um dos primeiros hotéis na área de convenções foi o meu. Mas, 15 anos depois, todos os outros já tinham salões e espaços maiores. Precisei mudar".
José Otávio também montou um local, o Espaço Livre Saber, que pode ser alugado para cursos. "Tudo começou devagar. Mas tem uma hora que precisamos acelerar as coisas". O acelerador foi a criação do departamento de inovação do hotel, em agosto do ano passado. Um mês antes, o empresário foi até as universidades e "convocou" estudantes. Recebeu vários currículos. Escolheu cinco alunos das áreas de administração, marketing e turismo. Dois deles, Aylton Spano Júnior e Emerson Braz continuaram a jornada e foram os principais responsáveis pela repaginada do hotel.
Os estudantes fizeram um diagnóstico do hotel, apontaram os pontos positivos e negativos e sugeriram mudanças. "Eles deram idéias maravilhosas", elogia José Otávio. Uma delas foi a de tematizar os andares com os vários ritmos de Pernambuco (frevo, maracatu, coco de roda, caboclinho, mangue beat e ciranda). Foram confeccionados estandartes de 1,90 metro de altura contando a história dos ritmos. A cor do hall de entrada foi trocada, assim como a logomarca do hotel, a parte gráfica. "Até perguntaram se tinha mudado o dono", diz Aylton Júnior, que agora é empregado efetivado do Cult.
Outra mudança que será feita em breve é a volta do restaurante do hotel. O Château brillant, hoje localizado em Olinda e especializado na culinária francesa, será transferido para lá. Deve começar a funcionar em meados de março. Com 27 funcionários e 60 apartamentos, o hotel oferece aos hóspedes 50 opções de roteiros culturais. Também implantou práticas "verdes", como a coleta seletiva, campanha contra o desperdício de água e energia. "São pequenas coisas que, no final, resultam em mudanças significativas", resume Aylton.
Investindo também nos funcionários
Hotel sem gente não funciona. Por outro lado, quando os funcionários são motivados, funciona as mil maravilhas. “Quando a gente chegou, os funcionários disseram que queriam fazer cursos, queriam que o hotel investisse neles”, conta Aylton Spano Junior. Foi o que aconteceu. Há 3 meses, cerca de 20 deles estão aprendendo o básico de inglês com uma professora do Senac. “Está todo mundo aprendendo. O próximo curso vai ser de atendimento”, diz José Otávio Meira Lins. O mensageiro Josenilton Barbosa está entre os alunos do curso de inglês. “É um dos mais aplicados”, afirma Aylton. O agente de inovação comemora outros resultados. As mudanças para deixar o hotel mais “verde”, estão reduzindo o consumo com água e energia em até 40%. Os hóspedes participam. Outra campanha levada adiante pelos hotéis da rede MarOlinda é contra a exploração sexual de crianças.
“Fui o primeiro da família a me interessar pela área de hotelaria”, lembra José Otávio, que em 1990 decidiu transferir a unidade de Olinda para a Barão de Souza Leão, também em Boa Viagem (o agora Econo Inn). “Olhei, aluguei o espaço, reformei o prédio e programei a mudança dos móveis e outros equipamentos. Em 48 horas já estávamos funcionando”, conta o empresário, que depois ficou conhecido como o homem que mudou um hotel de lugar em apenas dois dias. |